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“Vamos Embora”
É ano novo. A prima Letinha foi incumbida de pedir ao DJ para mudar a música, era preciso animar o pessoal. A aniversariante explicou: “Esse miúdo, o filho da Katerça é muito teimoso, não varia a música. Experimenta ainda Lete, vai só falar com ele. É que era 1 da manhã e a comadre da mãe do Miudinho já tinha ido para o carro dormir.
A Lete voltou com a resposta do teimoso. Disse: Oh tia, hum… Esses cotas??? Nummm DANÇAM. E ela: Está bem, mas tu põe uns merengues, uns sambas. Resposta igual e bem pachorrenta: Oh…tia, esses cotas? NÃO DANÇAM. E acrescentou: Quem vai dançar somos nós mesmo, (eles os miúdos), depois das 4 da manhã.
E nós: Mas já viram esses miúdos, até para dançar os cotas agora é que são os incompetentes? Para chegar àquela morada do Lar do Patriota, foi obra. Dar com os nomes e números das ruas é complicação tão grande que as tantas estávamos com uma jovem polícia no carro.
Algo habitual para ela. Contava-nos estorias sobre as dificuldades extremas para se achar uma morada no Lar do Patriota. Como a de uma certa esposa ia ter com o marido ao fim de muitas e muitas voltas, desistiu, dormiu no carro ao lado do Posto da Polícia para continuar a busca no dia seguinte.
Alguém teve mesmo que sair da festa para nos apanhar. Porque assim ninguém se entende: Vocês estão aonde? Referência: “Olha eu estou aqui ao pé de um montinho de areia”
As 3 da manhã, e dançar que é bom, nada. Questionamo-nos: Será que o puto tem razão? Algumas senhoras dispostas a dar uma lição aos cotas, saltaram para a pista, naquela mesmo de lhes mostrar que eles é que são os pernetas. Com o lugar que ocupa a farra na mwangolé society, ser incompetente para dançar é grave, preocupante.
Alguns as dez da manhã estão a entrar em casa com um ar esgazeado. A mulher de mão na cintura. “Mas você anda aonde? Tá responder: “Desbunda minha querida, desbunda da grossa. Farra num quintal com chuva!.” Vivem novas realidades.
“Pedidos de casamento, hoje em dia, não têm mais nada haver com aquele jantarzinho intimo. É farra rija”, explicam. “Alugam salão, decoram a festa, mariscada, tem a ala dos bolos, a ala das frutas, a ala do churrasco, pergunta ao Kamané?”.
O tal que tem os 131 toques para não passar vergonhas como o outro que acabou a noite a dançar no Cazenga, e a dama perguntou: “Moço como é? Não tens mais passada?” É para se precaver destes vexames o Kamané tem em carteira os 131 toques. E esclarece: “Agora casam com três farras, do pedido, do casamento, no civil e na igreja. Um camba meu deu mais uma para os que não puderam estar com eminentes figuras”.
Os nossos pais tiveram filhos à vontade, somos famílias numerosas onde não há tédio, deixamos de curtir as nossas próprias emoções para desfrutar da onda dos filhos, sobrinhos e netos.
E como somos mãos largas, os homens sustentam várias mulheres, mas estas também os sustentam mais os seus rebentos de dentro e de fora do casamento e fica tudo em família, por isso há muitas farras, aniversários, baptizados, bodas de ouro e de prata, pedidos de casamento, caldos de poeira etc.
Toda mulher aprende pelo menos a cor do verniz da moda. A carteira, o sapato etc., a moda é muito importante, porque nas farras há que comparecer sempre “bem arreado” e de cara alegre. A vida sorri-nos, mas se não sorrir não somos de nos queixar.
No Lar do Patriota, lá para as quinhentas um cota corajoso dirige-se a Gilda, que com os sms’s do fim do ano parecia a única que se estava a divertir num ambiente mais de velório do que de festa.
O cota numa de tomar medidas, assanhadamente, arranca-lhe o telefone das mãos: Vá, deixa lá isso, vamos dançar: OOPPSSS.
Nem três passadas e pumbas… foi pisado. Reclamou. “Estou enferrujada” disse ela. Resposta “Pois, mas treinar é em casa”. E ela: Só que desde as 22 até as 3 da manhã, aqui eu já podia ter treinado bastante”.
Os cotas queriam é mostrar que não dançam porque até nem são de farras. Naquela de que “esses miúdos só querem é o “mexe bunda” e beber e fumar e roubar. CUIDADO. Na próxima crónica vamos contar como a dona Guida escapou de ser “atracalhada”.
É ano novo. Maré de balanços e recomendações. Parafraseando recados já dados e na onda da tolerância zero pedimos também que “roubem menos” e que “viagem mais”, esperando que uma coisa nada tenha a ver com a outra. Que se trabalhe e se “descomplique” mais pondo o dedo nas feridas para as ultrapassarmos e fazermos de Angola um país melhor.
Mas vão mais vezes. Luanda respira sem os “tubarões” dos que vão em “retiro sabático”, aos médicos, para importar negócios e know how. Portanto mwangolés viagem, deixem as estradas transitáveis aqui na Lua.
Isto já é como uma palavra de ordem, vós ides, mais para fora do que para dentro, ides a passeio, ou para ficar, ides às compras, aos cabeleireiros, ides, pois se vóis podeis então ides.
Não é uma ideia tão despropositada viajar para ir a um salão de beleza, o trânsito luandense complica até uma simples ida ao cabeleireiro, e estes, “através” das farras tornaram-se indispensáveis. Se saímos de casa a pensar dez vezes sobre onde deixar o carro e no vamos pagar nos estacionamentos, aos guardas e as multas, claro que se justifica ir até “Portugalééé” ou outro país qualquer. Mangop viaja para os mais estranhos destinos e tem porto em todo mundo. As conversas giram em torno de: Quando é que vais? Quando é que vens? É “chiqui”.
Nos salões de beleza impingem-te serviços vários e as mulheres mwangolés preferem não apenas para por cabelo, mas matar atam 2, 3, 4 coelhos de uma só, poupando assim bastante tempo e dinheiro. Embora, não seja por isso, não somos cá de poupanças quando é para fazer bonito na fotografia.
Pagamos sem olhar para a factura e depois de esperar horas para sermos atendidos. Sabemos de antemão que o nosso é o único país do mundo onde o empregado tem sempre razão e tudo faz para que o cliente consecutivamente mal servido e mal tratado, desista, mas, o mais cedo que lhe for possível, para que também ele possa tratar da sua vidinha.
Mas há clientes chatos, pedem o livro de reclamações, o livro vem antes de todos os outros pedidos, nas mãos de um empregado feliz e sorridente.
Mas aos salões de beleza, temos que ir mesmo, até porque os nossos polícias gostam de nos ver bem “penteadinhos” sempre. Os chineses pensando no trânsito e para mitigar possíveis quebras, montam estabelecimentos onde te “amandam” logo com tudo. Depilações, porque andar peludo tornou-se muito anti-higiénico tanto para mulheres como para homens. Stressado do trânsito? Vai uma massagem, ao lado tens o restaurante. Sais dali massajado, depilado, de mocotós arranjados.
Já foi pior, mas viajar em Angola é daquelas coisas que exige muito de nós. Porém, quando tem que ser, o mangop corre, de passagem na mão, encara a luta do visto, depois a luta nos bancos para trocar dinheiro, todos lhe complicam, invejosos, mas ele transpira, se vira nos trinta, espera no trânsito, arranja divórcio, não pode é perder o avião. Indolentes e pouco expeditos, nós? Não é verdade. O que temos tido de paciência e ginica para ir arejar ou “não morrer” na peruca, todo ano, não há cá época alta, nem baixa, e nem essa necessidade de “poupar”. Somos mãos largas, desconhecemos o conceito e finish.
A nossa época é de festa e passeio todo ano. Tanto que já aparecem figuras a dar como justificação ao chefe: “Não escrevi ainda o relatório porque tive que descansar da festa de aniversário da minha mãe”. Não é anedota.
A farra agasta-nos, viajar também, mas permite-nos trazer fatos mais em conta. Senão “só para se esticar” podemos passar fome ou perder o conforto o resto do ano. E lá fora até sai tudo mais barato, isso até o mais alto mandatário disse e lamentou.
Faz todo sentido se nos estafamos e só pararmos quando já estamos dentro do avião, a percorrer milhas no ar, sujeitos a cair, chateados com a esposa ou esposo que também queria ir, mas não pode, porque está no hospital. Os nossos motivos são inadiáveis. E é para regressar já na semana seguinte, com os adereços todos e mais alguns pedidos e listas resolvidos. Estão a ver a corrida, mas, nós temos que nos apresentar devidamente nas farras. E não só, caprichar para nós é todo dia, andamos nos saltos. Para saltar buracos? Não interessa, é mesmo para ir trabalhar, para caminhar, enquanto não podemos “flutuar”.
Os que flutuam saíem de casa nos Xs 5 ou X7, entram directo para as garagens ou à porta está o guarda que apenas guarda o lugar do carro. Passam ao lado das dificuldades impostas aos que andam de carro.
Se queres ir para a farra fazer má figura, melhor que fiques em casa, não é por ti, é que envergonhas também a tua família. Eu cá, finalmente, consegui perceber porque que temos que estar mesmo todos “bem arreados”.
O mangop até pode ter preguiça de pensar e escrever o relatório, mas compensa com a falta de “preguiça na língua”, como diz o puto Pedro justificando a sua língua afiada, “não tenho preguiça na língua”. Para comentar o teu “arreanço”, ou que te viram com a mulher do fulano, etc. Isso, é para já chefe. !!!.
Acham-te graça porque não estás na moda usando marcas caríssimas, porque usas rasta e não gostas das mesmas coisas que todo mundo, gosta e consideram-se “todo mundo”. Faz parte do que chamam “estiga”. E daí surgem figuras que declaram: “Angolano só serve para ir com ele para farra, como eu não gosto de farra, para mim não serve para nada”. Xé, mas, a culpa é nossa se não dança por ser rija de cintura e anca?
Somos alegres porque “através da farra” ultrapassamos tudo, e sustentamos este sorriso aberto. Ali temos que estar de bom humor e recriar o ambiente. Não fazemos como a madrinha do miudinho. Ir pró carro dormir? Depois do que sofremos para lá estar? Façamos o ambiente, não está quente a gente aquece. Por isso toda a música de um cantor angolano tem sempre este refrão: “Vamos embora”. E há quem diga: “Faltou no hino”.
Chegamos a farra para mostrar que conseguimos estar bem na moda, só nos sentimos inferiores e incapacitados se não exibirmos, como outros exibem, digamos toda aquela “chiqueza”. Mas acreditamos que o nosso dia vai chegar e que o dinheiro foi feito para gastar em todas essas coisas supérfluas.
Bebemos mal e comemos à toa, até no funge de sábado, não deixa de ser trabalhoso, ou não seria preciso tentar explicar ao chefe a necessidade de descansar da festa de aniversario da mãe.
Para farrar, o mangop corre com as panelas de um lado para outro, da casa deste para casa daquele, corre para o salão do boda, bumba horas a fio em frente ao fogão, e mais o cuidar da aparência. Todo este desdobramento faz com que já haja teachers a aliciar os alunos da seguinte maneira: Para vocês fazerem este trabalho, imaginem que vão organizar uma farra. Então? Há que ter método, orçamentar. E os quitutes da terra? Ponham as novidades e iguarias da terra.
O professor que até é estrangeiro, reconhece, farrar é trabalho very dificult. Está provado que nos empenhamos a fundo e damos tudo se temos um bom motivo. É que quando tu pensas “ trabalho”. Eh pá, estraga-se logo tudo, ou não havia aqueles ditados: “Se trabalhar dá saúde …” Agonia, porque exige sempre alguma ou muita responsabilidade. Isso é universal, todos festejamos a sexta e os feriados, todos preferimos a praia, ler um bom livro, dar risada até do que na tem graça, com os cambas, na esquina da rua, tudo que não nos exige nenhum tipo de responsabilidade.
Concordamos que o trabalho deve ser feito “leve-leve”. Sem pressão buscando a perfeição, conforme explica o colega de S. Tomé, “leve-leve” não quer dizer deixar andar, é não ter pressa de acabar para fazer bem feito e não a despachar de qualquer maneira. E a gente até se anula se outros o fizerem por nós o que tem que ser feito.
Mas, para gastar como gastamos, no bem estar, nos carros de luxo, casas sumptuosas e nas farras constantes, temos que ganhar para poder continuar a gastar. Estamos afoitos, porque a hora é esta, e apanhamos todo tipo de banhadas, tentamos até vender o que não tem preço. O pior ainda é que vamos ter mesmo que trabalhar mais e arriscar mais e dar muito mais de nós.
Imaginem um patrão atrás do empregado para lhe dar o salário, antes do final do mês. E espera e luta para contactar o tal que nem para mostrar serviço correu. Porque há os que dizem: “Você me dá cem, por mês e prontos: Eu corro, me rebolo e me exploras como quiseres”. Mas outros nem por cem, nem trezentos, nem por mês, nem por semana. Bem feito, o problema não é o dinheiro. Quem foi que te disse que dinheiro tudo resolve aqui na Lua? Que deves andar por aí a pôr notas de cem nas mãos de todos aqueles que pretendes subornar por qualquer motivo? Pensas que aqui não existe a confiança?
E é toda esta azafama que faz com surjam também figuras a como em delírio a dizer: “Eu desisto de Angola, desisto dos angolanos, divorcio-me disto”. Mas que “ganda lata” destas pessoas que flutuam por esta triste Angola dando-se ao luxo de abrir a boca e jorrar palavras sem querer sequer perceber o que estão a dizer. Desistem fácil porque desistem daquilo que nunca levaram a sério. Melhor figura fariam se seguissem o exemplo do Vava que foi dar aulas na Universidade, sofre no trânsito para lá chegar, mas diz “Quero fazer a minha parte”.
Devemos sim, tentar resgatar um futuro que não nos pertence. Os mais novos não são culpados do que nos recusamos a fazer por preguiça e falta de carácter.
Os que desistem de Angola ao pôr o pé no avião, porque serão recebidos pela parentela em crise ou vão viver da renda da casa que alugaram em Angola, acham que acumularam o suficiente e vão alardeando cansaço “dos cérebros tacanhos dos mwangoles” só demonstram, que do que não desistem mesmo, é de ganhar à custa de mwangolés que também não desistem de trabalhar, estudar e de se superar. Era preciso que nunca tivessem cá estado.
Façam “leve-leve”, refaçam, corrijam, reavaliem as prioridades, façam de novo, tornem a corrigir, “vamos embora” porque falar não é fazer e não se desiste do que começa com crença e vontade.
Angola não depende da vontade de pessoas que falam em desistir do que mal começaram, mas certos mangops, com a mesma ligeireza e imprudência com que enganam os outros, enganam-se a eles próprios, e com a sua falta de preguiça na língua, dão a entender que se sentem em condições de desistir, ir para um mundo mais desenvolvido, levem pois toda a sua pobreza de espírito. Para fazer “show off”, ou “banga” não é preciso desistir, nem recomeçar, nem acabar nada.
Aconselhamos a água do Bengo, para que sintam Angola como uma paixão fulminante e incontornável, uma química inexplicável da qual queremos depender para sempre, nós, os nossos descendentes todos, e mais alguns milhares que também desistiram, foram e já voltaram e olham para o mwangolé a tentar decifrar: O quê que este quer?
Na farra do lar do Patriota os miúdos as 4 da manhã pulavam. Nós “cansadas do chá de cadeira”. A prima falou: Já viste os miúdos? O prometido é devido”. Os cotas não dançaram. Agora qual semba? Qual merengue o quê? Ao som dos “martelinhos” para dormir também não dava. SM
Arrastão
Se fores assaltado, não esqueças, vale mais a vida, do que o telemóvel.
E vocês sabem o que é um bolinho fofo?
Segundo a explicação que me deram:
- São esses putos fáceis de assaltar,
E eu: - Então és bolinho fofo, porque tens a mania das marcas, já te roubaram 3 móveis.
Resposta - Eu não…não… eu não.
Claro, ninguém quer ser bolinho fofo, mas eles existem. E sempre tememos que no futuro se confrontem com aquela questão: Quando sair do armário? Bem, quando eles se transformam em ladies já nada podemos fazer, definitly… Não há mais nada que, nós fêmeas, possamos fazer.
Mas enquanto eles nos forem lançando piropos e coisas do género, bem, não teremos quaisquer motivos para duvidar que homem é homem, tanto que, eles devem tomar as iniciativas, ou dantes no antigamente na vida eles tomavam as iniciativas, enquanto nós mulheres nos deixávamos simplesmente “arrastar”.
Em principio elas devem estar disponíveis para, pelo menos inchar quando uma cantada as coloca para cima e deixar voar a imaginação. Mas atenção, aquele motorista de camionete de olho azul, que pára fora da paragem para te levar na camioneta e se desfaz em gentilezas, não é o italiano do qual a outra dizia: Na Itália, poxa, até o motorista do ônibus é bonito.
Aqui estamos descendo à terra todos os dias… Aquele vizinho tão prestável e bem-parecido não é o mesmo de quem descobrimos os pés e com eles e o quão dura é a realidade da vida. Porque afinal a gente vê aquilo que nos é dado a ver, mas há coisas por que acabam por se revelar, por exemplo…, numa tarde de calor. Nem mesmo quando faz frio e a solidão nos faz doer a alma, sequer nos ocorre dar uma segunda oportunidade aos pés do vizinho.
Concluímos então que a vida é triste sim, que o que invariavelmente nos acontece é encontrar sapos ao invés de príncipes encantados, que depois de uma certa idade perdemos a capacidade para nos apaixonarmos perdidamente, porque apaixonante é a vida. Antes o vizinho jamais se tivesse apresentado de chinelos, porque…, aqueles pés…, bem… aqueles pés destruíram todos os nossos sonhos, e toda a nossa vontade de acreditar que a felicidade pode estar tão perto, bem à mão de semear, e aniquilaram toda a nossa fantasia. E isso foi profundamente injusto.
Por isso, não interessa o que eles escondem, e nós não precisamos do juízo para nada. Mas ainda nos resta a dúvida de que todo o entusiasmo nos leva directamente a estrada do desencantamento e que reinventar a capacidade para nos apaixonarmos pode custar caro. Não há crise. Que tal ir mais devagar? E que tal tão devagar, que depois esfria, e, murcha mesmo. Sempre podemos retardar a desilusão inevitável.
Por muito exigente e absorvente que seja, mulher tem (ou tinha?), por hábito deixar por conta do homem as decisões de real responsabilidade, eles tomam as iniciativas, eles pagam a renda de casa, eles levam comida para casa, eles têm a obrigação de fazer filhos. Não sem antes casar. Eles não dão satisfações, e mulher não gosta de bolinho fofo.
Será que entende como “homem” uma figura bem mais grotesca e desarrumada? Tipo assim: Umas meias bem mal cheirosas atiradas a um canto do quarto, ou uma sanita com a tampa toda molhada porque “homem” desconsegue acertar directo. Homem não pode ser transbordante de educação, porque mulheres preferem o lema da Pity: Educação é para se usar, não para desperdiçar.
E de alguma maneira eles têm que mostrar que são homens. Tomará não precisassem de aplicar às mulheres a tal cosmética violenta, ou achar que cozinhar é a elas que fica bem, tanto que elas devem andar arrumadinhas e saber fingir que há coisas que jamais lhes poderão acontecer e elas devem ser umas senhoras donas da vassoura e do fogão, elas que se preocupem com a organização do chinelo e com a visibilidade dentro da geleira, mas que não tentem muito mais que isso, e que se mantenham o mais desmazeladas possível, que engordem, que se danem e que não se atrevam a pecar em sonhos sequer. De todo modo, e para todos bolinhos ou não, fofos ou não, caso se deixem assaltar, não resistam, vale mais a vida do que o telemóvel.
Grazie
Tempo de obras
Na cidade da pedra
Um fulano é retirado de um carro, tem o braço partido, ganda rasgão na cara, sinistramente ensanguentado, mas os que o socorreram levam-no a uma esquadra de policia porque o Piquete da Polícia defronte ao hospital Maria Pia, devia lá estar, só que não está nesse dia.
E era preciso declarar a ocorrência que se deveu às pedras enormes e perigosíssimas que de manhã não estavam ali, mas a noite estão juntamente com a escuridão. E também não havia sinalização nenhuma naquele dia em que as pedras fecharam a rua e o carro voou. Foi tudo muito rápido.
O fulano garante que passou por ali ainda ontem, e de manhã, e todos os dias passa, a caminho de casa. Não viu a pedras fechando a estrada mas viu a morte de perto. E nos próximos dias, mais trágicos acidentes se vão registar, banalmente, naquele mesmo local. As pedras permanecem… impunemente… acidente após acidente. Fulano só partiu o braço e o carro todo, no mesmo dia em que acabou de o pagar, mas sicrano está em coma, beltrano deixou mulher e filhos, teve menos sorte. O que deu lugar à discussão: Sorte é isso? Ou seria não ter tido o acidente, ou ter ido mais devagar para poder prever tudo que pode acontecer pelas vielas escuras das nossas esburacadas estradas em obras.
Sorte seria escapar aos preços dos medicamentos e tratamentos, ofensivamente altos para os salários mínimos. E muita sorte mesmo é ter amigos doutores, daqueles que ainda capricham.
Na cidade da pedra, onde a poeira e o smoke avançam diariamente pelos pulmões e gargantas dos putos à saída das escolas, partimos do pressuposto que se é mais velho e anda a pé já devia ter ganho para comprar pelo menos um carro, o seu carro. Quem quer caminhar que o faça com o fumo negro dos candongueiros e outros carros que sequer deviam circular nas estradas mas que, todos os dias, religiosamente fazem a sua parte para que Angola conste nas estatísticas e relatórios mundiais como um país onde a esperança de vida ronda apenas os 40.
E as pedras lá estão barrando a estrada, sem qualquer sinalização, sem qualquer movimentação.
Sorte é também conseguir escapar a doenças provocadas pela falta de higiene, e por comidas deterioradas, porque não há restaurante que aguente as constantes falhas de luz e quando, conforme a midia se farta de repetir vários cantos da city são transformados em depósito de lixos, e de necessidades menores e maiores por falta de quartos de banho públicos.
E então alguém começa a contar que uma dor na vista o levou a uma clínica as 3 da manhã, estavam todos a dormir, em especial a doutora de plantão. Voltou umas horas depois, a Dra conseguiu enfim despertar do seu longo sono de princesa e apareceu dolente, endireitando a tiragem. Dirigiu-se a ele esforçando-se por pôr os cabelos no lugar e como se dissesse: Meu filho, primeiro dormir, depois a tissagem e depois salvar vidas.
É nesta parte da história que me orgulho sinceramente do puto Alik que queria porque queria ser médico e daí há algum tempo deixou de querer, deixou-se disso. Foi questionado. Mas filho porquê que já não queres ser médico, uma profissão tão bonita?. A resposta: Posso cometer algum erro.
Mas só por isso? Sim, posso cometer algum erro. Declara irredutível. Estava a querer dizer que não queria ser responsável pela morte de ninguém. Afinal até uma criança é capaz de perceber o peso da responsabilidade de uma profissão onde os erros são fatais.
E os preços dos medicamentos também são proibitivos. Numa farmácia, incentivada pela etiqueta em que se lia em cima de 2 escovas dentes: “Preço especial”, em letras garrafais, pergunto à vendedora, alertando: Olhe que aqui está escrito: Preço especial. Mas nisso ela acreditava menos que eu. Olhou para mim com um sorriso carregado de uma maldosa satisfação atirando: “Já vai ver o preço especial”.
Nada se compra numa farmácia sem reclamar. Uma caixa de curitas 2 mil kwanzas, uma chupeta 2 mil kwanzas, já não se pode ter filhos, uma caixa de preservativos 2 mil e quinhentos kwanzas. Será que temos que os ter e com sida? Da insulina para os diabéticos foge, hay que ser rico para viver como diabético em Angola.
Mas tudo isso a gente pode sofrer na carne e amargar até nos doer a alma, agora virem outros comentar e rir na nossa cara é imperdoável. Como conta a miúda Ziza, por exemplo: Esteve aí um pula e disse-me que não gostou muito, que lhe pediram muitas gasosas, fiquei envergonhada quando disse não pensar em voltar tão cedo porque na banda “tem tudo menos civismo”.
Mas imagina estares na praia para curtir as coisas boas da banda, das quais nós, jamais desistimos, a amena cavaqueira, as cervejolas à beira mar e começam-te a chegar aos ouvidos as conversas de outros que também estão ali para curtir as mesmas coisas boas, mas não tanto, para eles devia estar melhor. As tantas lá vem uma voz fanhosa: No próximo domingo vou para Sangano, é a última vez que venho para a Ilha, lá como bem, bebo bem, nado à vontade”. Quase só nos ocorre dizer como o pai do Alik, mas tem que ser com o mesmo ar enraivecido: BAZA MEU… BAZA MEU… Entretanto um esposa acerca da indisposição do marido: Ele diz que está preocupado com os macacos mas eu acho que é com as macacas. De facto, com tantas bundas ao léu, na praia, o problema só podia ser com as macacas. Mas entretanto começa outra conversa porque morreu a esposa do ofice boy lá do sitio, morreu ao dar a luz: Coitado!!!.
Daí há pouco alguém desabafa: Estes gajos! Pergunta O quê que ele disse mais? - Disse que em Angola não respeitamos a vida humana: Resposta: Ai é? Filho da mãe devia lhe dar uma hemorroida e nem dar tempo para ser evacuado. Pois… Parece que para reclamar já somos muitos.
Sílvia Milonga
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