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REPORTAGEM, VIAGEM A BENGUELA

Hospital da Missão - “Nossa Senhora da Paz”

Neste hospital dirigido por madres espanholas e portuguesas no
município do Cubal, não se faz da saúde um bom negócio, não se
admite a possibilidade de encerrar para obras, mas fazem-se obras
paulatinamente e a entrega dos enfermeiros para salvar vidas, apesar de
muito mal compensada financeiramente é visível e parece total.


Estamos à beira de uma "Manif" em Luanda. Apesar de todas as
recomendações, indicando não ser aconselhável sair de casa, pegamos a
estrada a caminho do município do Cubal, em Benguela.
É um fim de semana prolongado e havia sido anunciada uma manifestação,
que foi tida como um prenuncio de guerra em Angola, mas não há desistências.
As advertências do tipo «Viajar para Benguela? Cuidado, a polícia de lá pode
não vos deixar voltar» ou «Na Empresa estamos de sobreaviso» ou ainda «O
carnaval pode acabar mal», não podem ser tidas em conta porque a parteira
que vai dar formação no Hospital do Cubal tem o regresso marcado para breve,
não restando, portanto, tempo para temer a “Manif”.
Vamos visitar um hospital no município do Cubal, ao encontro de um grupo de
irmãs da igreja católica da ordem de Santa Teresa de Jesus.
Às sete horas da manhã, no primeiro controlo da polícia à saída de Luanda,
mandam-nos parar. Percebemos mal e não paramos. Mais à frente, a polícia
manda-nos voltar. A senhora condutora sai do carro e dá explicações aos
gritos; daí a pouco tempo está a gesticular para todos os lados, dizendo
que não é doida para andar a fugir da polícia. “Desculpem, isso é abuso do
poder”, alega. Os que ficam dentro do carro receiam: “Estamos fritos”. Mais.
Pensam: “Esta devia ter ficado em Luanda para ir à Manif”.
Saímos todos do carro para explicar aos polícias que tinham toda a razão. “A
senhora está assim porque se não viajarmos hoje, perde-se a última
oportunidade de levar uma parteira para dar formação a parteiras angolanas
do hospital do Cubal”. A polícia acata a explicação e considera a formação das
parteiras angolanas um motivo mais do que bom para ignorar os “arranques”
da estrangeira que, não só não parou quando devia, como saiu do carro pronta
a brigar e pôs-se aos berros por ficar sem a carta. Deixaram-nos seguir, não
sem antes aconselhar a mulher, de origem espanhola, a “beber mais água com
açúcar para ter mais calma”.
Estamos a entrar em Benguela, passando pelo Lobito, cidades onde se
escondem paisagens sublimes e verdejantes de uma Angola tão profunda
quanto esquecida. A 171 km da cidade de Benguela, está o município do
Cubal, onde cerca de 310 mil habitantes vivem sem água corrente, nem luz.
Dependendo de geradores, todos os dias a população carrega bidões de
plástico e enfrenta as filas nas bombas de gasolina para comprar combustível
que lhes permitirá ter pelo menos sete a oito horas de luz por dia.
A falta de água nas torneiras neste município vem de há cinco anos e as
estradas foram asfaltadas, dificultando a substituição das velhas tubagens do
sistema de abastecimento de água canalizada. Será assim, talvez, até que entre em funcionamento a barragem do Lubango,
que, conforme a administração local, se prevê para o próximo mês de Junho.

1149 Dra. Milagros

A saúde a preços simbólicos

Chegamos ao Cubal quase ao fim da tarde procurando a residência das
madres que vivem por ali e dirigem o Hospital Diocesano Nossa Senhora
da Paz. Aparentemente indiferentes, até à “Manif”, elas parecem ansiosas
por contar toda a luta pela sobrevivência do seu hospital. Durante os anos
de conflito armado entre o MPLA e UNITA, o Hospital da Missão, como é
popularmente chamado, acolheu e tratou soldados feridos de ambos os
partidos e nunca encerrou as portas para obras de reabilitação. Fazem-se as
obras todos os dias, e o inicio das acções de reabilitação que está previsto
para breve, também não será motivo para paralisar o trabalho do hospital.
Uma das salas mais recentes, criada a pedido dos enfermeiros, é um quarto
para os moribundos, “para que possam partir em paz quando já nada se pode
fazer por eles” explica a médica e directora, Milagros Moreno Nicasio, que vive
há 19 anos no Cubal.
Funcionando directamente com o Hospital Universitário Vall d´Hebron de
Barcelona e com o Hospital de São João de Deus, ambos de Espanha, e com
os quais realiza periodicamente sessões de telemedicina, o hospital diocesano,
apesar de muito degradado, aparenta organização e asseio.
O estabelecimento trabalha legalmente com o Ministério da Saúde de Angola,
e busca apoios pelo exterior do país. Apesar de ser privado, funciona com
técnicos básicos remunerados pelo Ministério da Saúde, com o qual participa
no esforço de formação de pessoal.
Quase diariamente, pacientes de diferentes partes de Angola, de Cabinda, Bié,
e até de Luanda, conforme diz Milagros, dão à costa no hospital da Missão
desiludidos de outros tratamentos ou atraídos pelos preços acessíveis. As
consultas, tratamentos e internamentos variam entre 150, 200, 500 kwanzas.


Sem reclamar subida de categoria, enfermeiros actuam como médicos.

O 1º curso de técnicos básicos organizado no Hospital da Missão pela Escola
de Técnicos Básicos de Lobito (Benguela) decorreu nos anos de 1997-1999.
Segundo Milagros Moreno, formaram-se 33 técnicos básicos, dos quais seis
fizeram o curso Médio de Saúde em Benguela e Bié. Desses apenas um está
a estudar medicina. E dos técnicos médios formados também só um está a
concluir o curso Superior de Enfermagem.
O hospital possui enfermeiros que estudaram nos municípios de Caimbambo
e Cubal e recebe pacientes com vários tipos de patologias, tais como
tuberculose, sida e, sobretudo, no ramo da pediatria. Actualmente, contam-
se apenas duas médicas, Milagros e outra madre que se encontra doente, em
Espanha.
Os 42 enfermeiros do Hospital do Cubal dão consultas e realizam outros procedimentos médicos que foram aprendendo. A ajuda vem também de
médicos voluntários, provenientes de Espanha e Portugal, que ficam no Cubal,
em geral dois/três meses, apenas um casal espanhol, um pediatra e um
radiologista, ficará seis meses. A troca de conhecimentos e experiências faz-se
igualmente nas sessões de formação realizadas semanalmente.
A ganhar um salário médio de 20 mil kwanzas, os técnicos de enfermagem
deixam o hospital extenuados para voltar à mesma empreitada no dia seguinte.
Ali esquecem as suas próprias carências ante as ocorrências do dia a dia.
Muitos continuam com as mesmas categorias, quando deviam ter subido
há cinco anos, como é o caso do chefe dos enfermeiros, que explica a
dedicação: ”O salário não chega, mas o trabalho tem que ser feito pois são
vidas a depender de nós”.

Mais de mil cirurgias por ano

O estabelecimento das madres foi classificado pela Direcção Provincial de
Saúde como Hospital Geral em Julho de 2008 e, desde 1998, é referenciado
nos tratamentos de casos de desnutrição severa (a nível de zona: Ganda,
Caimbambo, Tchongoroi, Cubal), e também de tuberculose.
Em 2002, o Hospital da Paz foi referenciado sistematicamente como um
exemplo no tratamento de casos de obstetrícia, cirurgia e traumatologia.
Porém, não tem recebido doentes destas últimas patologias desde que, em
finais de 2008, deixou de ter dois médicos especialistas como colaboradores.
Apesar de tudo, na Missão eram feitas anualmente mais de mil cirurgias. Um
número, segundo fontes municipais, superior ao do Hospital Municipal, que
quando estava a funcionar acabava por transferir os pacientes graves para o
Cubal.
Sobretudo nos anos em que o país esteve mergulhado em guerra, a Missão
era para os benguelenses uma unidade geral, porque a maioria dos hospitais
daquela província do litoral tinham as suas portas encerradas.
O encerramento recente do Hospital Municipal do Cubal para reabilitação levou
a que, mais uma vez, os seus pacientes se encaminhem para o Hospital das
Madres, deixando-o ainda mais sobrelotado. A procura faz com que alguns
doentes estejam a dormir no chão, pois o número de camas e de lençóis é
reduzido.

enf As enfermeiras Francisca e Maria de Fátima

Apelo à Administração Municipal

A nossa reportagem tentou ouvir a Administração Municipal do Cubal, que
havia recebido uma carta das madres, expondo as necessidades e os serviços
que garantem poder prestar. Na carta, apelam à instância máxima do município
para abordar a Delegação Municipal de Saúde pedindo apoios, pois o aumento
gradual de pacientes aumentou também os gastos do hospital.
“Gostávamos que a Delegação Municipal da Saúde nos cedesse, pelo menos,
quadros que trabalham no Hospital Municipal. Podiam colaborar connosco”,

afirma Milagros Moreno, lamentando as dificuldades que o hospital diocesano
tem tido para acudir à saúde de um município com mais de 300 mil habitantes.
São 13 horas no Cubal, sol ardente e é hora de procurar um local para “matar
a malvada”. Alguém nos recomendou o restaurante da Olímpia, ali come-se
galinha do mato, depenada na hora, kizaca com moamba de ginguba, funge e
feijão de óleo de palma. A dona do restaurante conta como consegue manter o
local a funcionar e os seus motivos. “Gosto de dar a comer aos meus clientes
as mesmas comidas que faço para comer na minha casa”.
Depois das 15h00, estávamos à conversa com os colegas da Rádio Nacional
no Cubal. Por telefone, do Gabinete do Administrador Municipal, informam-
nos que seremos recebidos pela administradora adjunta do Cubal, Filomena
Pascoal.
Em relação à carta das madres, na qual estas enumeraram os compromissos
que podem assumir mediantes os recursos materiais e humanos que têm,
a administradora garantiu que se arranjarão soluções, pois a Administração
Municipal reconhece a importância que o Hospital teve durante o conflito
armado, mas como afirmou: “As irmãs querem as coisas para ontem e há
problemas que devem ser resolvidos de maneira cautelosa”.
Tivemos ainda a impressão de falar com alguém que pudesse ser o que
se classifica como “um “bufo”. Mas alguém quis acalmar os camaradas
jornalistas «Deixem ser bufo, não viram que também se quis queixar da falta
de água como os outros? Bufo que não toma banho, deixá-lo». Os espíritos
estavam exaltados naquele fim de semana de carnaval. Era cada um a fazer
a sua demonstração de força e a ver bufos e abusadores do poder por todo o
lado, havia pânico e ansiedade no ar.
A viagem terminaria no dia Internacional da Mulher, com a mesma condutora
que gritou com a polícia a parar o carro já em Benfica, para socorrer uma
esposa embriagada que estava a apanhar do marido, diante de dois homens
indignados, pois “ela bateu primeiro” e também diante dos filhos do casal, três
crianças entre os três e os seis anos.

hos

Passado e futuro

Madres buscam Convénio desde 2007

A funcionalidade do Nossa Senhora da Paz começou antes do país se tornar
independente. Em 1974, era um dispensário, apenas nos anos de 1984/1985
a presença de médicos fez com que se transformasse em hospital. A partir
de 1993 até 2001, fazia-se todo tipo de cirurgias e havia 900 vagas para
internamentos.
A procura aumentou e esta unidade é importante no litoral do país, daí que
beneficie de ajudas, tanto de dentro como de fora de Angola. A instituição
recebe do Programa Nacional de Nutrição (Ministério da Saúde) leite especial,
medicamentos para a tuberculose, para a SIDA e, algumas vezes, reagentes
para laboratório. O programa de combate ao SIDA do Hospital da Missão
permitiu já, desde que começou a ser aplicado, que filhos de 70 mães
infectadas nascessem sem o vírus.

À semelhança do que acontece com o Ministério da Educação, a Igreja
Católica tem tentado um convénio com o Ministério da Saúde, a fim de
formalizar as relações de trabalho que existem.
«A nível nacional não se está a tentar no campo da saúde, nada oficial e similar
ao convénio que existe entre a igreja católica e o Ministério de Educação»
diz Milagros Moreno, acrescentando que o Hospital da Missão está a tentar
oficialmente, desde Fevereiro de 2007, oficializar, através de protocolos, a
relação de trabalho que tem com várias instituições do Ministério da Saúde.
“É verdade que agora não poderíamos oferecer os mesmos serviços, deixámos
de ter médicos especialistas em cirurgia e em obstetrícia, mas existem muitos
outros serviços que se mantêm”, refere.
Num futuro próximo, o hospital será reabilitado, através de um financiamento
de 200 mil dólares, cedido pela ONG «Mãos Unidas». Mas, para o
reapetrechamento com equipamentos hospitalares, aguarda-se por novas boas
vontades.
As ofertas de serviço nas áreas de maternidade, pediatria, doenças infecciosas
(VIH, tuberculose e outras), serão mantidas assim como os programas do
hospital de saúde pública nas consultas externas, na certeza de que custa mais
curar doenças do que preveni-las.

med Médicos voluntários.

Importação de medicamentos

O Hospital da Missão foi seleccionado pela Aid Progress Pharmacist
Agreement (APPA), associação sem fins lucrativos, legalmente
reconhecida pela UNESCO, para beneficiar de um donativo que visa
colmatar as necessidades de medicamentos para os seus internados.
Especialistas da APPA visitaram, em Janeiro de 2010, o Cubal a fim de,
Junto da Direcção Provincial de Saúde, atestar a idoneidade do hospital
para criar um local adequado, com condições higiénicas sanitárias, ou seja
um laboratório galénico conforme as leis vigentes em Angola.
Depois de construído o laboratório, técnicos da Direcção Provincial de
Saúde inspeccionaram-no, recomendaram modificações necessárias e
tudo está ser feito para se receber o donativo proveniente de Itália, que irá
diminuir as dificuldades de medicamentos do hospital.
Entretanto, o donativo, que segundo o ofício da APPA vai melhorar
dosagens e melhorar ao máximo as diferentes formas farmacêuticas
especificamente para crianças, adultos e mulheres grávidas, poderá
prescrever enquanto as madres tentam desbloquear as dificuldades que têm
encontrado para a sua importação.

SM & JM

 

 

prox

 

 

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