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Fazem falta uns heróis...
Na década de 80/90 um agrupamento musical pôs Portugal a pular. O seu nome Kussondulola, o seu principal vocalista um angolano. Na entrevista que se segue Janelo da Costa que é também vice-presidente da AAMA, Associação Moitense dos Amigos de Angola, dá-nos a conhecer a história do grupo que lidera. |
VIESTE PARA A EUROPA MUITO NOVO AINDA
Em 1976… depois voltei, mas passados dois anos já cá estava outra vez, em rota para a Alemanha, fiquei lá quatro anos, porque pertenço a uma família de emigrantes, mas também por causa da música... Conheci alguns jamaicanos... houve um triângulo que me fez movimentar: música, família e amigos…
Tudo isto tem a ver com as origens do meu nome Kussondulola, uma palavra que em kimbundu significa mudança, deslocação para um sítio melhor. Era o nome da minha bisavó e daí esse espírito de movimento…
A PARTIR DE QUE MOMENTO É QUE A MÚSICA PASSOU A OCUPAR DEMASIADO ESPAÇO NA TUA VIDA?
Desde muito cedo… começou logo em casa, nas festas do quintal, fui apanhado pelos disco-jockeys da altura, a vê-los pôr música no prato, fiquei fascinado desde aí…
e, depois, sou de Luanda, ouvi desde muito miúdo os Jovens do Prenda, os Merengues, ia com os irmãos mais velhos, às vezes com os pais, vê-los ao Pavilhão , a eles e a outras famosas bandas da época... ficou-me desde aí o fascínio do instrumento, de fazer música..Era fã da bola, mas optei pela música, esse querer." que eu quero", a vontade de criar. Sempre tive capacidade para compor, escrever… vi na música uma forma de o conseguir.
IMAGINO QUE JÁ TINHAS UMA BANDA NA ESCOLA...
- Sim, claro… a malta quando começa-se a ligar na música tem logo um grupo. O primeiro chamava-se Rumde. O nome de um amigo meu, mais velho, já tocava mais do que a malta, fiz questão que o nome da banda fosse o nome dele ao contrário. Esse foi o primeiro contacto com isso de fazer grupo, tocar, depois, dali para frente, foi só questão de ir caminhando…
E, bom, depois conheci o reggae ainda na adolescência. O Bob Marley, primeiro. A seguir, a minha Mãe comprou um vinil do Peter Tosh que parecia a minha cara. A partir daí, foi um dos meus mentores... David Zé, todos aqueles nomes da música angolana, eu já conhecia, mas foi o Peter Tosh que me deu um empurrão...foi incrível.
E, depois, a minha ligação à Fé, a Deus, desde muito cedo, desde criança, também ajudou. Quando era miúdo, adorava ver os coros nas igrejas. A Fé deu-me uma grande vontade de cantar.
- A FÉ É UM ELEMENTO MUITO IMPORTANTE EM TI...
Fundamental. Somos dotados de Fé, todos nós, eu acho. Nascemos com isso, não somos é perfeitos, mas recebemos isso. Essa coisa está lá... e aí aparece o canto... tu tens que estar com a Fé, porque tudo o que está na Natureza tem som, tudo, animais, plantas, árvores, o vento...não há silêncio. Quem fez o mundo assim, de certeza que deve ficar mesmo satisfeito quando a gente começa a cantar. Acho que é daí que eu apanho, que eu carrego esta Fé.
QUE TE LEVOU A SER MÚSICO PROFISSIONAL, EM PORTUGAL.
-Quando cheguei, comecei logo a tocar pela Europa com jamaicanos… então houve um momento em que comecei a ser empurrado por eles para voltar para Lisboa… Eu resistia: tinha a minha vida por lá, os irmãos também…
Mas a minha banda queria que eu viesse para cá, para ajudar a promover o reggae cantado em português. Aliás, sou mais um compositor que um músico. Músico sim, mas apenas para compor os meus arranjos. Um letrista, essa é a minha base. Na altura, já fazia música e dava ideias de arranjos, de produções para a banda. E eles começaram a ver em mim esse sentido de compor, de harmonizar as coisas...
Eu tinha uma série de músicas que eles achavam muito boas… só que cantava em português. Eles notaram, e passaram a fazer questão que eu regressasse.
REAGISTE MAL Á IDEIA?
Ao princípio, até achava que eles o que queriam era despachar-me, pá, mas não. O pessoal rasta, tem uma espiritualidade muito grande, e acabaram por convencer-me que era bom que viesse.
Eles tinham estado aqui durante uma época, e sentiram que havia um grande desconhecimento, que o reggae não estava ainda implantado, e na altura já estava a ser bem movido no mundo, a pouco e pouco, acabei por achar boa ideia. Voltar para Portugal… por essa necessidade de cantar em português... o reggae é para as pessoas, tem de ser cantado, a música tem que ser explicada e entendida.
E como o Bob Marley sempre disse que esta música iria espalhar-se pelo mundo todo, essa ideia também me fez trazê-lo para Portugal. A juntar a isso, havia o movimento dos músicos angolanos os que ajudaram a fazer a revolução, as mensagens que houve aí, isso tudo para mim na época foi uma grande fonte de inspiração.
AÍ APARECEU O KUSSONDULOLA E A SUA BANDA..
Quando voltei, mandei vir músicos de Angola, havia falta de músicos, os de cá estavam envolvidos noutras áreas e eu precisava de gente que viesse de África, Tinha de lhes ir bater à porta, ir a Angola, às origens, e virem alguns, aí arranjei um produtor brasileiro, e lancei o primeiro álbum em português, o “Tá-Se Bem”, que saiu em 1995. Foi um êxito...penso que será um clássico da música moderna e não só, mesmo dentro da música de língua portuguesa como um todo.
Creio ter conseguido mostrar nele muito bem o lado bom do reggae. A bondade, a fé,.. o álbum fez-me ser o que sou, o resto foi a sequência. É uma música que vai crescendo, não é uma moda.
PARA TI O REGGAE ESTÁ MUITO PRÓXIMO DA MUSICA ANGOLANA.
Sempre o achei muito ligado à música angolana, não sei porquê nem como explicar, mas sempre senti isso e um dia os historiadores de música vão-se aperceber disso.
Os géneros Quizomba, Semba, e a postura dos músicos da minha terra, tudo isso fez-me seguirem o reggae. Numa vertente angolana…
COMO COMPOSITOR, COMO DEFINES A SITUAÇÃO DA MUSICA EM PORTUGAL, AGORA?
Eu poria no mesmo saco todos os países de língua portuguesa, são precisos novos trovadores, como o Zeca Afonso, o David Zé, e muitos outros, aquela malta toda que nos ajudou a sermos hoje o que somos…
Socialmente, e em todos os aspectos, estamos com fome de trovadores…
O resto é a vida. Mas temos a falta disso.
E aí é muito importante termos uma linha de conduta segura, que é para a malta nova ir buscar essas origens. É fundamental. Nos tempos que vivemos hoje, fazem falta aí uns heróis…
Hoje a quantidade de músicos é tanta que não nos apercebemos dos que são fora de série, que a gente precisa de ter na banca de cabeceira, muitos artistas nos passam ao lado. É uma falha. Precisamos de estar mais atentos, descobrir novas palavras…
ANGOLA, COMO É POSSIVEL AINDA NÃO TERES TOCADO LÁ?
Convites sempre houve, mas nenhuma hipótese se pôs de pé… A oportunidade é agora. Aliás, antes não havia condições: envolvimentos aqui, a música, cursos, família, etc. Mas este é o ano do Kussondulola aparecer em Angola. Já temos uma produtora, a Avó Lemba, que prepara uma tournée, talvez para Maio. Será o meu regresso. Para mim, é o ano certo e correcto para voltar a Angola. Vai ser uma emoção muito grande: o povo angolano a receber-me, estarei em casa, isso é que conta..
E chega de guerra e de política, o que precisamos é de coisas sociais.
Culturalmente falando, queremos dar lá uma força,estou muito envolvido com a juventude angolana, e a malta nova de lá precisa de muita espiritualidade. Eles precisam de Fé...
FALA-ME DE UM INSTANTE ABSOLUTAMENTE INESQUECÍVEL DA TUA CARREIRA.
-Um dia, fui fazer um concerto no Castelo de Sines, completamente lotado..O palco era muito alto, entro eu.. A banda já estava a tocar, começo a cantar. De repente, venho de trás a correr, meto o pé em cima dos cabos que funcionaram como uma roldana e… pumba… caio de cabeça!
Fui levado ao hospital, depois voltei, para cantar outra vez, foi inesquecível...Não por ter caído, ou poder ter morrido... nada disso…
Mas as pessoas, durante o resto do concerto, ajudaram-me a cantar as minhas próprias canções… foram tão solidárias comigo… senti-me o amigo duma multidão. Nunca os poderei esquecer.
Jorge Ramos

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