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O batuque como terapia urbana.


O grupo de jovens raparigas que tem animado os eventos da Galeria Celamar, tenta ganhar a vida e encontrar um refúgio para esquecer os seus dramas pessoais. Com a ajuda de amigos e simpatizantes deste projecto elas poderão ser cada vez mais “Las vedetas de las tamboretas”.


Em Angola as mulheres tocam batuque no grupo etno -linguístico do Kwanhama, no Moxico, durante o Carnaval da Ilha, mas não a nível urbano. As doze raparigas que se uniram em torno do projecto Percussão/Feminina Celamar, buscam nos sons do batuque uma saída em termos profissionais mas encaram-no como «um trabalho e uma diversão», conforme explica a líder do grupo Margarida Nkai ao Novo Jornal.
Fazer do exercício deste instrumento de música tradicional um trabalho é o objectivo de um projecto da artista plástica Marcela Costa que propõe apoio profissional na área de cultura e artes a jovens/mulheres adolescentes desprotegidas e sem emprego.
Marcela foi busca-las em lares e bairros luandenses. Para ela tocar um batuque não exige força mas sim técnica, contudo, o que se pretende similarmente é dar sentido a vidas atribuladas e facilitar a adaptação social de meninas sem pais algumas morando com tios e tias, proporcionar-lhes sustentabilidade e auto-estima.
Desde que chegaram a Celamar as moças podem contar com o ombro amigo da artista plástica a quem carinhosamente passaram a chamar mãe. «Já noto melhorias nelas, precisavam de uma terapia. Vivem idades criticas e, como também sou mãe, incuto-lhes que devem estudar e ter uma formação para se defenderem» afirma Marcela.
O Percussão Celamar surgiu para dar um novo alento a um outro projecto da Galeria o Amostra D’Arte Mulher. Começou os ensaios dia 15 de Janeiro e estreou-se a 8 de Março de 2007. Eram 20 raparigas dos Centros de crianças desamparadas e dos bairros. Mas nem tudo correu como previsto.
Com as raparigas das comunidades a Celamar deparou-se com exigências de alguns pais e encarregados de educação. Era preciso suportar deslocações e outras despesas. A maioria foi desistindo. Decidiu-se enquadrar apenas jovens dos centros de crianças abandonadas, como o AKA, Horizonte Azul, Mamã Muxima e outros. Reuniram-se 8 crianças do Centro AKA, porém, passado algum tempo o grupo desmoronou. Quando as crianças conseguiram fazer um trabalho que chamava atenção, os responsáveis do Centro levaram-nas para actuarem em eventos deles, e o grupo viria a morrer.
«Falhamos por estar concentrados só em meninas dos centros e resolvemos então deixar que outras jovens com vontade dos bairros participassem». Assim, o grupo Percurssão/feminina Celamar, integra também raparigas de bairros como Prenda, Cacuaco, Viana Golfe, Ingombotas e Samba.
Elas tocam batuques encomendados de Ponta Negra, diferentes dos “ngoma”, que têm que ser aquecidos antes de se usar. Os “jemba”são feitos com pele de cabrito ou vitelo e aquecem com o calor do sol.
As moças capricham nos trajes e penteados tradicionais. «Como elas vêm para aqui sempre é exactamente o que é difícil fazer entender as pessoas, por vezes temos que alugar um meio de transporte e o cachet que pedimos acaba por ser só para isso» esclarece a artista plástica.
O treino mais prolongado  do grupo Celamar é ao sábado com o professor, as terças e quintas as batuqueiras exercitam-se sozinhas. O primeiro director técnico do grupo foi Abrão Baptista Kumba, de nome artístico Maradona. Entretanto a fama deste conjunto atraiu à Celamar Patrício de Lemos, um jovem que regressou a Angola depois de morar 18 anos nos Estados Unidos, os últimos dos quais a ensinar percussão em escolas.

O preconceito predomina

Na opinião de Patrício de Lemos os preconceitos em relação à cultura nacional ainda são muito fortes, porém Angola está numa fase boa para os ultrapassar e tentar recuperar aspectos muito ricos da sua cultura.
Ele fala de uma realidade que viveu na América onde o batuque e outras artes africanas fazem parte fazem dos curriculuns escolares visando estimular a criatividade dos jovens. Considerando que o trabalho artístico estimula o crescimento e ajuda os jovens a ultrapassar problemas, Patrício diz que gostaria de apresentar ao ministério da educação e da cultura, que neste aspecto devem trabalhar juntos, um programa educativo para transmitir aos jovens ensinamentos de percussão, dança e canto africano.
«São programas com enfoque nos ritmos de Angola, Ghana, Congo, Libéria e Senegal, que podem servir de base nas escolas angolanas» refere sublinhando que durante o tempo que morou no exterior do país esteve sempre próximo dos ritmos e da cultura angolana. «Pesquisava com outros africanos sobre os ritmos e culturas africanas e angolana em particular».
Quando ouviu falar do grupo de percussão da galeria Celamar quis conhecer e começou por assistir ensaios orientados pelo professor Maradona.
Há solicitações para espectáculos pontuais e contratos mas segundo Marcela cobra-se essencialmente para pagar o transporte, embora as jovens percussionistas tenham, cada vez mais, outras necessidades.
A artista acha que as pessoas dificilmente vêem a arte e a cultura como uma profissão «As pessoas pensam: Mas eu vou dar 2 mil para ver essas ex-meninas de rua, não tem consciência do trabalho que ali está, no nosso meio raramente os profissionais de outras áreas dão valor a arte, o sentido pejorativo impera».
A sua ambição para as raparigas do Percussão Celamar é que aprendam a tocar outros instrumentos tradicionais, para complementar o batuque, mas pesquisando, respeitando e buscando sempre ritmos de Angola.
Embora considere um facto a marginalização dos artistas em Angola, as suas batuqueiras têm chamado as atenções e são bastante aplaudidas. Fora do país foram uma das principais atracções do pavilhão de Angola na Feira Internacional de Saragoza (Espanha). Segundo nos contam, os visitantes aproximavam-se para perguntar: «A que horas vão tocar “las muchachas de Angola, ou “las vedetas de las tamboretas”».

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Composição do Grupo

1-Margarida Paulo Nkai - Solista- 22 anos/ Brº Prenda
2-Isabel Tondela - Solista - 23 anos/ Brº Ilha do Cabo
3- Helena Caiombe - Solista- 15 anos /Brº Maianga AACA
4-Luisa Monteiro -Acompanhamento - 22 anos/BBrº Viana
5-Maria Judith - Acompanhamento 21 anos/Brº Golfe
6-Madalena Irene - Acompanhamento e Dançarina - 18 anos/ Brº Ingombta
7-Sonia Fuma Fernandes - Acompanhamento - 15 anos/Brº Maianga -AACA
8- Mimosa Menezes - Acompanhamento -18 anos/Brº Golfe

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